O sorogrupo B do meningococo é o mais prevalente no país — e não há vacina gratuita no SUS. Alagoas é o 2º estado com mais casos. Uma história de censura, negligência e a pergunta que não quer calar.
▶ Assista ao vídeo no YouTube
Infectious Diseases in Focus →Nos anos 1970, o Brasil viveu a maior epidemia urbana de meningite meningocócica de sua história — e o regime militar fez o que pôde para esconder. Mais de 50 anos depois, o sorogrupo B do meningococo representa 53% dos casos sorogrupados no país, Alagoas lidera o ranking de incidência do Nordeste, e a vacina eficaz contra esse tipo ainda não está disponível gratuitamente no SUS.
Este artigo conta essa história — e explica o que os pais, os profissionais de saúde e os cidadãos precisam saber.
Entre 1971 e 1975, São Paulo foi o epicentro da maior epidemia urbana de meningite meningocócica da história do Brasil. A incidência explodiu: de aproximadamente 2 casos por 100 mil habitantes em 1970 para quase 30 casos por 100 mil em 1974. Eram milhares de infectados — a grande maioria crianças e jovens. A letalidade chegava a 13–20% em alguns períodos. Quem sobrevivia muitas vezes ficava com surdez, amputações ou danos neurológicos permanentes.
O sorotipo predominante na época era o C, que se espalhava em escolas, ônibus lotados e habitações superlotadas — condições típicas de uma metrópole em rápida expansão e com enorme desigualdade.
A epidemia só foi efetivamente controlada em 1975, quando o governo — pressionado pela gravidade crescente da situação — organizou uma campanha de vacinação em massa com vacina antimeningocócica A e C. Foram vacinadas mais de 80 milhões de pessoas em poucos meses. A incidência caiu dramaticamente.
A lição foi clara: quando se age com transparência e vacinação em massa, a doença recua. Quando se esconde o problema e se demora para agir, pessoas morrem.
A meningite meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis — o meningococo. Ela pode infectar as meninges (membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal), causando meningite bacteriana. Em sua forma mais grave — a meningococcemia — a bactéria entra na corrente sanguínea, causando sepse com coagulação intravascular disseminada, choque séptico e insuficiência de múltiplos órgãos.
O que torna essa doença particularmente temida é a velocidade de sua progressão. Uma criança que acorda bem de manhã pode estar em estado crítico ao cair da tarde. Em menos de 24 horas, a meningococcemia pode ser fatal. A taxa de letalidade, mesmo com tratamento adequado, fica em torno de 10–15%. Entre os sobreviventes, sequelas permanentes — amputações de dedos e membros por necrose, surdez, comprometimento neurológico — ocorrem em 10–20% dos casos.
O meningococo existe em vários sorogrupos. No Brasil, os mais relevantes são A, B, C, W e Y. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece vacina contra os sorogrupos C e ACWY. O problema é o sorogrupo B.
O Brasil registrou 1.131 casos de doença meningocócica em 2025 — acima dos 846 de 2024. O sorogrupo B é atualmente o mais incidente no país, representando aproximadamente 53% dos casos sorogrupados em 2025.
Alagoas lidera o ranking de incidência da doença meningocócica no Nordeste e ocupa a segunda posição no país, segundo dados recentes do Ministério da Saúde. Em fevereiro de 2026, a Secretaria Municipal de Saúde de Maceió decretou surto de meningite meningocócica do sorogrupo C, após a confirmação de três casos em um intervalo inferior a 90 dias.
Em 2024, a primeira dose da vacina meningocócica C atingiu apenas 85,82% do público-alvo em Alagoas, e em 2025, 84,85% — abaixo dos 95% recomendados para garantir a proteção coletiva. Sem imunidade de rebanho adequada, mesmo crianças vacinadas ficam mais expostas.
| Indicador | Dado | Fonte |
|---|---|---|
| Sorogrupo B — participação nacional | 53% dos casos sorogrupados | Ministério da Saúde, 2025 |
| Casos nacionais em 2025 | 1.131 | MS |
| Casos nacionais em 2024 | 846 | MS |
| Posição de AL no Nordeste | 1º lugar em incidência | MS, 2026 |
| Posição de AL no Brasil | 2º lugar em incidência | MS, 2026 |
| Cepa identificada em AL | cc213 (hipervirulenta) | Instituto Adolfo Lutz |
| Cobertura MenC em Maceió | ~84–85% (meta: 95%) | Sesau-AL, 2025–2026 |
Existe vacina eficaz e segura contra o meningococo B. A Bexsero, produzida pela GSK, é aprovada pela Anvisa, é segura, é eficaz e já está incluída nos calendários vacinais nacionais do Reino Unido, Itália, Austrália, Canadá e outros países. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomenda sua administração rotineira a partir dos 3 meses de idade.
Para pais e mães: mantenham o cartão de vacinação atualizado com todas as vacinas disponíveis no SUS. Converse com seu pediatra sobre a Bexsero — mesmo que não esteja no SUS, o pediatra pode avaliar se a vacinação privada é indicada para o seu filho e ajudar a planejar o acesso.
Para todos: conheça os sinais de alerta da meningite (febre alta, dor de cabeça intensa, rigidez de nuca, manchas roxas) e não hesite em ir ao pronto-socorro se eles aparecerem. Essa doença não espera.
Como cidadão: se você acredita que a Bexsero deveria estar no SUS, informe-se, compartilhe e cobre dos seus representantes políticos. A inclusão de vacinas no PNI é uma decisão técnica e orçamentária que pode ser influenciada pela pressão da sociedade civil informada.